O Ficha Limpa é, sem dúvida, um dos mais importantes projetos destinados a melhorar a imagem dos políticos brasileiros desde que a reputação de governantes e parlamentares passou a ser manchada por sucessivos atos de corrupção, improbidade, malversação, prevaricação, tráfico de influência e outros delitos que enojam a população.A erosão do prestígio da categoria levou a sociedade a exigir uma norma capaz de livrar o eleitor do risco de escolher candidatos condenados pela Justiça.
A norma é correta e o princípio, explicável. Mas, como tudo, precisa ser aperfeiçoada. Observe-se, por exemplo, o caso do político Athos Avelino, que se lançou candidato a deputado estadual pelo PPS de Minas Gerais.
Em 2008, na condição de prefeito de Montes Claros, Avelino concorreu à reeleição e compareceu a um evento religioso que reuniu um grupo expressivo de evangélicos. Ali, subiu no palco e discursou.
O evento contou com dinheiro da prefeitura e, por essa razão, Avelino foi condenado por abuso de poder. (Detalhe: ele nem sequer chegou a ser reeleito.)
Por esse motivo, o TRE-MG, na segunda-feira passada, dia 26 de julho, cassou o registro da candidatura de Avelino. Ele ainda pode recorrer.
A história se esgotaria aí se, na mesma sessão, o TRE não tivesse considerado elegível o deputado Edmar Moreira, aquele que é dono de um castelo no interior de Minas e injetou rios de dinheiro da Câmara dos Deputados numa empresa de segurança de sua propriedade.
Condenado pela opinião pública, Moreira foi julgado por seus pares, que nada viram de errado no gesto imoral e o absolveram.
Agora, a Justiça Eleitoral (a mesma que o condenou) entendeu que ele pode ser candidato ao cargo que bem entender.
Sem querer tomar partido de ninguém, há uma diferença considerável entre subir em um palanque na hora errada e encontrar um jeitinho bacana de botar a mão em dinheiro público.
O Brasil precisa de uma reforma política profunda e séria, que restitua o respeito do cidadão pelo Parlamento e não deixe o governante na obrigação de provar sua honestidade a cada segundo.
O Ficha Limpa, como se vê, além de não ser a solução de todos os problemas, ainda é capaz de gerar comparações como essa.
Ricardo Galuppo é diretor de redação do Brasil Econômico